Covelas

Maria da Fonte

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 Quem foi Maria da Fonte?

Joana Maria Esteves, Joaquina Carneira, Josefa Caetana, Maria Angelina, Maria Custódia Milagreta, Maria da Fonte do Vido, Maria da Mota, Maria Luiza Balaio, Maria Vidas, todas podem ter sido a Maria da Fonte que deu nome à revolta de 1846, um motim popular dirigido por mulheres, por muitas e não apenas por uma.

Costa Cabral e os enterros fora das Igrejas. A morte de Custódia Teresa, habitante do lugar de Simães, freguesia de Fontarcada, foi a gota de água. O povo já andava descontente com as leis de Costa Cabral, ministro de Maria II, mas, em 1844, quando saiu a nova regulamentação dos serviços de saúde… Agora, não só é obrigatório descrever as propriedades nas «papeletas das ladroeiras» para se apurar o imposto, como se tem de romper com a tradição de enterrar os cadáveres nas igrejas, esperar que o delegado de saúde certifique o óbito e, ainda, pagar as despesas do funeral. A lei das taxas e da construção de cemitérios datava de 1835, mas nunca fora cumprida dada a pobreza em que se vivia nessa época de crise económica agravada pela praga da batata e a seca.

Desde logo surgiram as dúvidas quanto ao rosto a dar à Maria que sublevou o mulherio minhoto, iniciando uma guerra civil que só terminaria no ano seguinte. Sobre os acontecimentos foram escritas diversas versões por observadores e intervenientes, cada uma com a sua Maria.

O escritor Camilo Castelo Branco, à data com 21 anos, também contribuiu para a confusão: romanceou (40 anos depois) a partir dos factos verídicos e houve quem acreditasse que a Maria da Fonte Vido era a verdadeira.

Perante a multiplicidade de críticas (e embora existam alguns seguidores, poucos, das teorias expressas na obra de Camilo), feitas por aqueles que se dedicaram ao estudo de problemáticas Camilianas, conclui-se, como o fez Hélia Correia no prefácio de uma das edições da «Maria da Fonte»: «A Maria da Fonte é uma maldade. É uma esplêndida maldade Camiliana», Paulo Alexandre Ribeiro Freitas, «Maria da Fonte».

A morte de Custódia

A morte de Custódia, cujo nome fica na História por ter sido o pretexto para a revolta, era a segunda ocorrida nos primeiros meses de 1846 nesta freguesia do concelho de Póvoa de Lanhoso. Na primeira, já se tinham registado tumultos, mas nada como o que haveria de suceder. As mulheres de Simães saíram para a rua no dia 22 de Março, mal souberam que vinha aí o comissário de saúde para atestar o óbito, e o resto já se adivinhava: o médico passaria a certidão, o pároco concederia o Bilhete de Enterramento, os familiares teriam de pagar a taxa «de covato» e o cadáver seria enterrado fora da igreja, contrariamente às tradições do povo que acreditava que, noutro chão qualquer senão o do templo, os mortos estariam desprotegidos.

O médico não se atreveu a aparecer e, na manhã seguinte, muitas mulheres armadas de paus e dos mais variados instrumentos agrícolas dispuseram-se a impedir o enterro. Quatro agarraram no caixão e todas as acompanharam em correria, ao longo de um quilómetro, até ao mosteiro onde sepultaram a vizinha sem esperar pelo serviço religioso. À frente, de vermelho, empunhando a cruz e com uma pistola à cintura, ia Maria Angelina, irmã do sapateiro de Simães e a única que escolhera uma arma de fogo. Esta Maria da Fonte deveria ter cerca de 20 anos, estatura média, uma aparência robusta e, como as outras, terá gritado vivas à rainha e morte aos Cabrais e às leis novas. Ela própria se apresentaria como sendo a heroína quando o padre Casimiro (um setembrista que liderou a continuação da revolta) visitou a vila da Póvoa e tão convencido ficou que lhe deu 4$800 reis.

 A prisão das «Marias da Fonte»

Perante os factos, as autoridades resolveram prender as cabecilhas da revolta, no mesmo 24 de Março em que tentariam exumar o cadáver de Custódia para repor a lei. Foram presas quatro «Marias da Fonte»: Joaquina Carneira, Maria Custódia Milagreta, Maria da Mota e Maria Vidas.

Os sinos tocaram a rebate, a defuntos e a repique, reunindo o mulherio das freguesias. Centenas de mulheres com foices, chuços e varapaus afugentaram os representantes da Justiça e correram à pedrada os coveiros. Entusiasmadas com o poder repentino, reuniram-se e decidiram libertar as companheiras quando estas fossem ouvidas pelo juiz. Assim, a 27, milhares se voltaram a juntar ao toque dos sinos e marcharam do Cruzeiro até à vila para arrombar com machados as portas da cadeia.

A Maria da Fonte autora da primeira machadada ficou conhecida por Joana Maria, mas esta jovem, entre os 18 e os 20 anos de idade, usou nomes diversos. Joana Ana, filha do bacharel João Batista Vieira e de Ana Rosa, terá ido buscar à sua madrinha o nome Maria; ao casar-se apresentou-se com o apelido Esteves, quando registou o nascimento da sua filha escreveu Mariana Rosa e no óbito do seu filho Joana Maria das Neves. Muitos anos mais tarde, em 1883, o jornal «O Comércio de Portugal» noticiava: «Na noite de 7 para 8 de Dezembro de 1874, faleceu na freguesia de Verim, Ana Maria Esteves, natural de Santiago de Oliveira, casada com António Joaquim Lopes da Silva daquela freguesia de Verim e que fora a famigerada Maria da Fonte».

 O assalto à cadeia

Após o assalto à cadeia, as revoltosas ficaram eufóricas. No largo da Fonte, Maria Luiza Balaio convida-as a beber um copo na sua taberna e hospedaria, como era habitual. E assim surge outra hipótese de rosto numa mulher que não chega a tomar parte ativa, mas que conspira com a sua clientela e já seria conhecida por esse nome. Atestadinhas até aos gorgomilos, precisavam de dar a taramela, desabafar, e assim foi. Possuídas do belicoso espírito de Marte no coração e reforçadas (é de presumir) pelo turbulento espírito de Baco no miolo, romperam num entusiasmo delirante, com vivas à Maria da Fonte. E para berrar não há como as goelas das camponesas minhotas, Paixão Bastos, «Maria Luiza Balaio ou Maria da Fonte». Quando os cabralistas retomam o poder, Luiza terá fugido para fora do país. No «Diário de Notícias» de 15 de Dezembro de 1874, pode ler-se: «Está no Porto e vem por estes dias a Lisboa a célebre Maria da Fonte. Acompanha-a o seu marido que há dias veio do Brasil onde enriqueceu».

Dias depois, numa freguesia vizinha, na de Galegos, outras se revoltaram e sepultaram, «no chão devido», Francisco Lage. As autoridades emitiram mandados de captura, mas apenas prenderam Josefa Caetana que julgou conseguir livrar-se dizendo ser dona do nome que todos temiam, mas os agentes conheciam-na bem e o juiz mandou-a para a prisão de Braga. No caminho, na Serra do Carvalho, os seis polícias da escolta são assaltados por centenas de mulheres e esta Maria da Fonte é libertada. E se esta usou o título como defesa, houve quem dele abusasse como é o caso de uma Maria de Calvos que para melhor vender os doces que fazia afirmava ser a heroína de Fonte Arcada.

No contexto de um Portugal agrário e proto-indústrial, com um governo liderado pelos cabrais que criaram as matrizes prediais, as juntas de saúde proibiram os enterramentos dentro dos templos, surgem os primeiros sentimentos de revolta e consternação. O país estava descontente, a população passava dificuldades e, para cúmulo a profunda reforma fiscal levara ao aumento dos impostos.
Este cenário conduziu a que em vários pontos do país a população enfrentasse a tropa do Governo.

O 1.º movimento revolucionário, de 1846, neste concelho parecia, em princípio, não ter a gravidade à qual depois se chegou, se bem que as revoltosas do Minho sejam sempre mais temidas que as de outras regiões. Porque será?

O gosto pela preservação das tradições conduziram a desconfianças e atos de rejeição perante as inovações impostas por Costa Cabral.

A atitude de oposição e ódio que o povo votava o Governo tornava-se cada vez mais pronunciado e ameaçador.

A proibição dos enterramentos dentro dos templos exaltou os ânimos do povo, que por falta de instrução, não conhecia a utilidade dessa medida sanitária, nem queria alteração alguma aos antigos costumes.

Os enterros, em Póvoa de Lanhoso, foram a chama das manifestações conduzidas pelo sexo feminino.

A 20 de Janeiro de 1846 teve lugar na freguesia de Fontarcada, o enterramento de José Joaquim Ribeiro, que no cumprimento da lei devia ser sepultado no adro, visto não haver ainda cemitério. As mulheres, ao saberem disso, reuniram-se a fim de conduzirem o falecido ao mosteiro de Fontarcada e efetuarem o enterro. No dia seguinte ao préstito fúnebre, dispuseram-se as mulheres para a exumação do cadáver, mas o regedor da freguesia, Jerónimo Fernandes de Castro, conseguiu que desistissem.

No dia 5 de Fevereiro, do mesmo ano, registou-se idêntico tumulto. Falecera Maria Joaquina da Silva, que transgredindo a lei foi sepultada no interior do templo.

A manifestação do grupo de mulheres, armadas com chuços, sacholas e forcados, no dia 22 de Março, no funeral de Custódia Teresa, e os insultos por estas perpetrados “Viva a Rainha! Abaixo os Cabrais e as leis novas”, deu origem a uma ordem de captura pelo regedor da freguesia.

Detidas algumas das revoltosas e levadas para a Vila da Póvoa de Lanhoso, logo as restantes, ao que tudo indica mais de 300, armadas de fouces e varapaus deixaram o mosteiro de Fontarcada para livrarem as suas companheiras.

Uma das revoltosas que mais se sobressaia era Maria Angélica de Simães. Trazia a ela presas na cintura duas pistolas, sendo a única que se apresentava com armas de fogo. Encaminharam-se para os paços do concelho descarregando repetidos golpes de machado na porta, entrando no salão de audiências, onde arrombaram um alçapão e libertaram as mulheres. Dirigiram-se depois para a casa do administrador não o encontrando, porém saciaram a sua vingança queimando muita da papelada inútil.

Apesar de todas as controvérsias, no dia 5 de Abril, dá-se outro enterramento, ao qual comparece o grupo de mulheres que sepultam o cadáver dentro do templo. Deste ato resultou a captura de Josefa Caetana, que sujeita a interrogatório disse chamar-se Maria da Fonte. O administrador, em vista do arrombamento da cadeia, facto que podia repetir-se, resolveu enviar diretamente para Braga a criminosa, vigiada por 6 cabos da polícia.

A notícia desta resolução levou o mulherio a enfrentar os guardas, que viram-se obrigados a ceder.

Tendo em conta os factos ocorridos o administrador entendeu que não podia continuar a exercer o seu cargo. Para seu lugar foi nomeado o bacharel Salvador António da Cunha Rocha, da casa do Requeixo, freguesia de Fontarcada, exaltando de alegria as revoltosas, porque sendo o novo administrador mais popular, esperavam que fosse com elas mais benevolente.

Mas quem foi Maria da Fonte?

Muitos defendem que foi o nome dado a um grupo generalizado de mulheres, sem que houvesse qualquer uma a destacar-se do conjunto, outros defendem que foi uma mulher específica.

Para alguns como José Paixão Bastos, a verdadeira Maria da Fonte chamava-se Maria Luísa Balaio, que lhe chamavam Maria da Fonte. Era proprietária de uma hospedaria “Maria da Fonte”, ponto onde ocorriam as revoltosas, onde logo lhes aparecia Maria Luísa Balaio, que ao que tudo indica nunca tomou parte ativa na revolução feminina.

Josefa Caetano, Maria Angélica de Simães, para o povo de Fontarcada a verdadeira Maria da Fonte, ou uma outra mulher de nome Maria, são outras hipóteses que ao longo dos anos se têm colocado.

No fundo, apesar de todas as teorias, Maria da Fonte foi um amplo combate pela liberdade e pela justiça social, muito mais do que um protesto contra a proibição dos enterros nas igrejas, que não deixou de ser enunciado na literatura através de Camilo Castelo Branco, na música por Midosi e Frondoni “Hino da Maria da Fonte”, nas artes plásticas por José Augusto Távora que pintou Maria da Fonte na parede de uma sala do clube Povoense.

Maria da Fonte, um enigma que continua. Afinal que rosto tem essa figura que se tornou uma lenda?…

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